quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Amor passado e presente...



XX



Posso escrever os versos mais tristes esta noite.



Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,

e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".



O vento da noite gira no céu e canta.



Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu amei-a e por vezes ela também me amou.



Em noites como esta tive-a em meus braços.

Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.



Ela amou-me, por vezes eu também a amava.

Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.



Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.



Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.



Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.



Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.

A minha alma não se contenta com havê-la perdido.



Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.

O meu coração procura-a, ela não está comigo.



A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.

Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.



Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.

Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.



De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.

A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.



Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.

É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.



Porque em noites como esta tive-a em meus braços,

a minha alma não se contenta por havê-la perdido.



Embora seja a última dor que ela me causa,

e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda

in Cem poemas de amor e uma canção desesperada


terça-feira, 19 de agosto de 2008

Prisão...!



Tenho amor, sem ter amores.



Este mal que não tem cura,

Este bem que me arrebata,

Este rigor que me mata,

Esta entendida loucura

É mal e é bem que me apura;

Se equivocando os rigores

Da fortuna aos desfavores,

É remédio em caso tal

Dar por resposta ao meu mal:

Tenho amor, sem tenho amores.



É fogo, é incêndio, é raio,

Este, que em penosa calma,

Sendo do meu peito alma,

Da minha vida é desmaio:

E pois em moral ensaio

Da dor padeço os rigores,

Pergunta em tristes clamores

A causa da minha aflição,

Respondeu o coração:

Tenho amor, sem ter amores.



Soror Madalena da Glória (1672- ?)

in Poemas de Amor


Antologia de poesia portuguesa


Publicações D. Quixote

domingo, 17 de agosto de 2008

Homenagem

Homenageando as mulheres afegãs,
homenageio todas as Mulheres.

sábado, 16 de agosto de 2008

Landay II

Mulheres afegãs com a tradicional burkha

Nas sociedades tribais afegãs os casamentos são ajustados pelos pais, sempre por interesses económicos ou outros, mas sem conhecimento das noivas, que por vezes são obrigadas a casar com velhos ou crianças. A estes, nos landays, chamam "pirralho horrível". Não há landays a exaltar o amor conjugal, os landays exaltam sempre o amor pelo amante.

...

O destino deu-me por esposo uma criança que eu educo
Mas quando ele for grande e forte, eu já serei velha e fraca

* * *
Gente cruel que vedes um velho me levar para a sua cama
E perguntais porque choro e me arranco os cabelos

* * *
Ó meu Deus, de novo ela está aí, a noite longa e triste
E de novo ele está aí, o meu "pirralho horrível" e dorme

* * *
Vem amado meu, vem depressa para junto de mim!
O "horrível pirralho" dormita e tu podes beijar-me

* * *
Deitada quero possuir o meu amante
Mas ele tem medo. Receia que o "horrível pirralho" acorde

* * *
Ó "horrível pirralho", pega na tua arma e mata-me
Enquanto for viva não renunciarei ao meu amante

* * *
Ó Deus leva este velho esposo
Que de noite me vigia e de dia dorme

* * *
Olhai do esposo a horrível tirania:
Bate-me e proíbe-me de chorar

* * *
Se não estás louco de amor por mim
Não provarás a polpa dos meus lábios

* * *
Se me beijas a boca, tens de me dar o coração
Os que saem da minha cama deixam em penhor o coração

...

in A Voz Secreta das Mulheres Afegãs
O suicídio e o canto
Versão de Ana Hatherly
Editora Cavalo de ferro

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Landay I


Landay é poesia popular afegã, breve, em que a mulher é autora e sujeito. Mulher vivendo numa sociedade tribal, onde o homem tem direitos e a mulher deveres.


...

Em segredo ardo, em segredo choro
Sou a mulher patshun que não pode revelar o seu amor

* * *
Beija-me ao esplendor vivo da lua
Nos nossos costumes é em plena luz que damos a boca


* * *
Que Deus te proíba todo o prazer em viagem
Já que me deixaste adormecida, insatisfeita

* * *
Poisa a tua boca na minha
Mas deixa a minha língua livre para te falar de amor


* * *
Meu Deus que fizeste de mim?
As outras são flores desabrochadas e tu deixas-me em botão

* * *
Ó Primavera, as romãzeiras do meu jardim estão em flor
Guardarei para o meu amor ausente as romãs dos meus seios

* * *
A noite passada dormias nos meus braços
Esta noite, longe de mim, como terás descanso?

* * *
Num instante serias um monte de cinzas
Se sobre ti lançasse o meu olhar inebriante

* * *
Estás ébrio porque eu te sorri
Ficarias louco furioso se te oferecesse a minha boca

* * *
O meu amor prefere as flores sensatas dos jardins
Mas eu, tulipa selvagem, desfolho-me na planície sem fim

...

in
A voz secreta das mulheres afegãs

o suicídio e o canto
versão de Ana Hatherly

Editora Cavalo de Ferro

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

No tempo dividido

Relógio Floral
Edimburgo


No tempo dividido

E agora ó Deuses que vos direi de mim?
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
Como um monstro a si próprio se devora.

Sophia de Mello Breyner Andresen
in No tempo dividido, 1954

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Jogos Olímpicos



Os Jogos Olímpicos perderam a sua pureza inicial para se transformarem numa máquina de propaganda política e numa forma de demonstração de força e poderio.

domingo, 10 de agosto de 2008

O sol nas noites e o luar nos dias



O sol nas noites e o luar nos dias



De amor nada mais resta que um Outubro

e quanto mais amada mais desisto:

quanto mais tu me despes mais me cubro

e quanto mais me escondo mais me avisto.



E sei que mais te enleio e te deslumbro

porque se mais me ofusco mais existo.

Por dentro me ilumino, sol oculto,

por fora te ajoelho, corpo místico.



Não me acordes. Estou morta na quermesse

dos teus beijos. Etérea, a minha espécie

nem teus zelos amantes a demovem.



Mas quanto mais em nuvem me desfaço

mais de terra e de fogo é o abraço

com que na carne queres reter-me jovem.



Natália Correia

Poesia Completa

sábado, 9 de agosto de 2008

Final


Mas na janela o ângulo intacto de uma espera
Resolve em si um dia liso.

Sophia de Mello Breyner Andresen
in Coral

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Mago

Mago

Mago respirou fundo. Abriu o nariz e encheu o peito de ar ou de luar, não podia saber ao certo, porque a noite era uma mistura de brisa e claridade. Mas fosse da frescura ou de luz a onda que bebera de um trago, de tal modo o inundou, que em todo o corpo lhe correu logo um frémito de vida nova. Esticou-se então por inteiro, firmado nas quatro patas, arqueou o lombo, e deixou-se ficar assim alguns instantes, só músculos, tendões e nervos, com os ossos a ranger de cabo a rabo. Arre, que não podia mais! Aquele mormaço da sala dava cabo dele. Punha-o mole, sem acção, bambo e morno como o cobertor de papa onde dormia. A que baixezas a gente pode chegar! Ah, mas tinha de acabar semelhante vergonha! Não pensasse lá agora a senhora D. Maria da Glória Sância que estava disposto a deixar-se perder para sempre no seu regaço macio de solteirona. Não faltava mais nada!
...

Miguel Torga
in Bichos