quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Corpo habitado.

Obra 22
Carla Gonçalves

Corpo Habitado
Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.    
Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.    
Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.  
Corpo para beber até ao fim -
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.    
in Obscuro Domínio
Eugénio de Andrade

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

1º de Dezembro

Quando se recorda, vive-se, ou morre-se um pouco...?!

Mar...

O Inverno está a chegar. Mar, ontem, numa aberta das chuvadas...

domingo, 23 de novembro de 2008

Outono, de novo!


Casa devoluta!
Na Primavera cá estarão, de novo.
Benvindos...!

sábado, 22 de novembro de 2008

O meu sol!


Amar-te-ia se viesses agora
ou inclinasses
o teu rosto sobre o meu...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

...mais Outono!


Explosão de cores!

domingo, 16 de novembro de 2008

Outono


Outono no meu quintal!
O ciclo inexorável da natureza...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Lua adversa

Luar no meu quintal
dia 12 de Novembro de 2008



Lua Adversa

Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...

E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles,
in 'Vaga Música'

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O beijo

O beijo
Toulouse-Lautrec


Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

Eugénio de Andrade

domingo, 9 de novembro de 2008

Carta a Angela

Retrato de Adele Bloch-Bauer
Gustav Klimt, 1907
Óleo, folha de ouro e de prata sobre tela, 138 × 138 cm
em Nova Iorque, Neue Galerie New York


Carta a Ângela


Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor.

Carlos de Oliveira