quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Parabéns, minha amiga!

Espoir
Maya Nikitima

Sê

Se não puderes ser um pinheiro, no topo da colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê a melhor no que quer que sejas.

Pablo Neruda

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Verdade!

Coerência e Verdade

Henry Moore


Verdade



A porta da verdade estava aberta,

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.



Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.



Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

diferentes uma da outra.



Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.

E carecia optar.

Cada um optou conforme

seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Congresso Internacional do Medo

Ashes

Edvard Munch




Congresso Internacional do Medo



Provisoriamente não cantaremos o amor,

que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.

Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,

não cantaremos o ódio porque esse não existe,

existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,

o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,

o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,

cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,

cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,

depois morreremos de medo

e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas



Carlos Drummond de Andrade

sábado, 23 de agosto de 2008

Tua presença...

Mulheres musicais
Ana Kaminski


Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta

Sophia de Mello Breyner Andresen
Livro Sexto

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Quem és tu





Quem és tu



Quem és tu que assim vens pela noite adiante,

Pisando o luar branco dos caminhos,

Sob o rumor das folhas inspiradas?



A perfeição nasce do eco dos teus passos,

E a tua presença acorda a plenitude

A que as coisas tinham sido destinadas.



A história da noite é o gesto dos teus braços,

O ardor do vento a tua juventude,

E o teu andar é a beleza das estradas.



Sophia de Mello Breyner Andresen

Obra Poética I

Caminho