segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Tarde de Outono

Era uma tarde de Outono



Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas

Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.

Outono... Rodopiando, as folhas amarelas

Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...



Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,

Visitaste este mar inabitado e morto,

Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,

Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?



A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos

A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...

Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!



E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,

E contemplo o lugar por onde te sumiste,

Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac

sábado, 6 de setembro de 2008

Retrato


Retrato

O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?

Pedra talhada a pico e sofrimento,

É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto

Faz um poema doce e desejado;
Mas quem passa na rua

Nem sequer sonha que do outro lado

A paisagem da vida continua.

Miguel Torga
Diário VI
Coimbra, 12 de Março de 1952

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Ausência

Ausência
Alex Everitt

Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua

Sophia de Mello Breyner Andresen
in Mar Novo, 1958

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O ser e o nada



Os dois postes anteriores, com dois poemas sublimes mas um pouco tristes e pessimistas, embora bem realistas, obrigaram-me a reflectir sobre o seu conteúdo.

O silêncio ensurdecedor, a solidão que esmaga, a noite de insónias que não termina, o frio interior, a espera que desespera, o vazio angustiante e a morte ignorada.

A morte é o nada. O nada, a não existência, a ausência de ser e de realidade. A paz total e definitiva.

Enquanto não chega essa paz total e definitiva como podemos lidar com a solidão e o vazio?

Só há uma maneira possível: com afecto, seja amizade, ternura ou amor.

Da amizade ao amor vai um salto qualitativo grande. O amor para ser estável deverá construir-se diariamente, a partir de uma base de amizade, respeito, tolerância e ternura grandes, e ser "condimentado" pelo desejo.

Será que um homem e uma mulher poderão usufruir uma grande amizade?

Podem se o desejo, esse diabinho, não se intrometer.

Por vezes o diabinho está latente, de forma dissimulada, e qualquer pequeno acontecimento pode incendiar a pradaria!

O afecto existe, anda no ar, deve ser saboreado e sentido de forma partilhada, para chegarmos à paz total e definitiva com o menor sofrimento possível.

A questão não é a existência da solidão, do vazio e da dor - existirão sempre - a questão reside na forma como soubermos lidar com essas circunstâncias e na forma como conseguirmos viver e construir o afecto.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A morte absoluta

O triunfo da morte

Pieter Bruegel



A morte absoluta



Morrer.

Morrer de corpo e de alma.

Completamente.



Morrer sem deixar o triste despojo da carne,

A exangue máscara de cera,

Cercada de flores,

Que apodrecerão - felizes! - num dia,

Banhada de lágrimas

Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.



Morrer sem deixar porventura uma alma errante...

A caminho do céu?

Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?



Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,

A lembrança de uma sombra

Em nenhum coração, em nenhum pensamento,

Em nenhuma epiderme.



Morrer tão completamente

Que um dia ao lerem o teu nome num papel

Perguntem: "Quem foi?..."



Morrer mais completamente ainda,

- Sem deixar sequer esse nome.

Manuel Bandeira

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Silêncio vazio


No ponto onde o silêncio

No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão
Tão nítido e preciso era o vazio

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Bebido o luar

Lovers in the moonlight

Marc Chagal



Bebido o luar



Bebido o luar, ébrios de horizontes,

Julgamos que viver era abraçar

O rumor dos pinhais, o azul dos montes

E todos os jardins verdes do mar.



Mas solitários somos e passamos,

Não são nossos os frutos nem as flores,

O céu e o mar apagam-se exteriores

E tornam-se os fantasmas que sonhamos.



Por que jardins que nós não colheremos,

Límpidos nas auroras a nascer,

Por que o céu e o mar se não seremos

Nunca os deuses capazes de os viver.



Sophia de Mello Breyner Andresen