O meu perfil é duro como o perfil do mundo. Quem adivinha nele a graça da poesia? Pedra talhada a pico e sofrimento, É um muro hostil à volta do pomar. Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto Faz um poema doce e desejado; Mas quem passa na rua Nem sequer sonha que do outro lado A paisagem da vida continua.
Miguel Torga Diário VI Coimbra, 12 de Março de 1952
Os dois postes anteriores, com dois poemas sublimes mas um pouco tristes e pessimistas, embora bem realistas, obrigaram-me a reflectir sobre o seu conteúdo.
O silêncio ensurdecedor, a solidão que esmaga, a noite de insónias que não termina, o frio interior, a espera que desespera, o vazio angustiante e a morte ignorada.
A morte é o nada. O nada, a não existência, a ausência de ser e de realidade. A paz total e definitiva.
Enquanto não chega essa paz total e definitiva como podemos lidar com a solidão e o vazio?
Só há uma maneira possível: com afecto, seja amizade, ternura ou amor.
Da amizade ao amor vai um salto qualitativo grande. O amor para ser estável deverá construir-se diariamente, a partir de uma base de amizade, respeito, tolerância e ternura grandes, e ser "condimentado" pelo desejo.
Será que um homem e uma mulher poderão usufruir uma grande amizade?
Podem se o desejo, esse diabinho, não se intrometer.
Por vezes o diabinho está latente, de forma dissimulada, e qualquer pequeno acontecimento pode incendiar a pradaria!
O afecto existe, anda no ar, deve ser saboreado e sentido de forma partilhada, para chegarmos à paz total e definitiva com o menor sofrimento possível.
A questão não é a existência da solidão, do vazio e da dor - existirão sempre - a questão reside na forma como soubermos lidar com essas circunstâncias e na forma como conseguirmos viver e construir o afecto.